27 de julho de 2014

"Ribamar", um café amargo demais


Sim, eu disse lá em cima que não ia fazer críticas. Eu menti.

Ouvi falar pela primeira vez de "Ribamar" pelo próprio autor, José Castello, em uma entrevista. Fiquei curiosíssima: um romance que dialoga com a "Carta ao pai" de Kafka, com capítulos intercalados com estrofes de uma canção de ninar, confessadamente de fundo autobiográfico, uma verdadeira viagem psicanalítica... Delícia pura.

Mas sabe quando o café não desce bem? Confesso que insisti. No início, até que gostei do tom melancólico e dos insights atingidos, ainda que doloridos. Entretanto, 1/4 do livro já se havia passado e o mais do mesmo já me arranhava a garganta.

Não me entendam mal. Eu gosto de café amargo... Só há um porém: se não há nenhum contraste de sabor, até a amargura se torna insossa.

Milan Kundera - Parte 1

Como ser neutra e crítica em relação a um livro com o qual se tem uma ligação profundamente pessoal? Não dá, desisto antes de tentar. Então, essa é a história do...

"Meu (in)sustentável relacionamento com Kundera"

Quando temos um relacionamento, todos perguntam: "como vocês se conheceram?" Pois eu vou contar.

Um dia, aos 17 anos, eu estava passeando na livraria da minha cidade e uma capa me chamou a atenção: tinha um design lindíssimo, baseado nas figuras angulosas da obra de Lasar Segall, feito por João Baptista da Costa Aguiar para a Companhia das Letras.


A imagem e o título ali se complementavam de uma forma instigante: "A insustentável leveza do ser". Peguei o livro e abri em qualquer página. Sim, diante de um livro novo eu faço o que não posso fazer com alguém que acabo de conhecer: abrir ao acaso para ver se o que tem dentro corresponde à capa. Isso porque mesmo as primeiras páginas podem enganar, simular um potencial que não se sustentam no decorrer da obra (e assim também com as pessoas). Não é o que acontece com Milan Kundera.

Se eu disser que esse livro moldou o modo como vejo o mundo desde então, não estarei exagerando. Kundera se tornou uma espécie de "pai literário", que corrobora minhas desilusões, alimenta-me de idéias e inteligência e a quem apresento meus namorados (poucos resistiram à densidade filosófica da "conversa com o pai").
Cada leitura e releitura é um novo encontro, uma nova conversa... Como ele jamais me desaponta, o mínimo que posso fazer é permanecer leal a ele.

E lá se vão 13 anos.

                                                Milan Kundera