Como ser neutra e crítica em relação a um livro com o qual se tem uma ligação profundamente pessoal? Não dá, desisto antes de tentar. Então, essa é a história do...
"Meu (in)sustentável relacionamento com Kundera"
Quando temos um relacionamento, todos perguntam: "como vocês se conheceram?" Pois eu vou contar.
Um dia, aos 17 anos, eu estava passeando na livraria da minha cidade e uma capa me chamou a atenção: tinha um design lindíssimo, baseado nas figuras angulosas da obra de Lasar Segall, feito por João Baptista da Costa Aguiar para a Companhia das Letras.
A imagem e o título ali se complementavam de uma forma instigante: "A insustentável leveza do ser". Peguei o livro e abri em qualquer página. Sim, diante de um livro novo eu faço o que não posso fazer com alguém que acabo de conhecer: abrir ao acaso para ver se o que tem dentro corresponde à capa. Isso porque mesmo as primeiras páginas podem enganar, simular um potencial que não se sustentam no decorrer da obra (e assim também com as pessoas). Não é o que acontece com Milan Kundera.
Se eu disser que esse livro moldou o modo como vejo o mundo desde então, não estarei exagerando. Kundera se tornou uma espécie de "pai literário", que corrobora minhas desilusões, alimenta-me de idéias e inteligência e a quem apresento meus namorados (poucos resistiram à densidade filosófica da "conversa com o pai").
Cada leitura e releitura é um novo encontro, uma nova conversa... Como ele jamais me desaponta, o mínimo que posso fazer é permanecer leal a ele.
E lá se vão 13 anos.